Voltar a EURO RUGBY CUP 2009
O vosso autor teve, enquanto acompanhou a comitiva nacional em França, hipótese de realizar duas entrevistas que, tal como toda a viagem, correram muito bem. A conversa que abaixo reproduzimos ocorreu no último dia, 30 de Agosto, e teve como principal objectivo compreender a componente de preparação física e recuperação dos atletas, antes e depois dos treinos e jogos, e caso estes se lesionem.
Entrevistámos o Pedro Gomes, Fisioterapeuta da Selecção Nacional de Sub-17, um senhor de enorme coração e disponibilidade, que mostrou pelo nosso projecto e questões a mesma dedicação e simpatia que toda a comitiva lhe reconhece, quer seja quando está a trabalhar ou nos poucos momentos de descanso que, durante esta digressão, teve direito a ter.

Entrevistámos o Pedro Gomes, Fisioterapeuta da Selecção Nacional de Sub-17, um senhor de enorme coração e disponibilidade, que mostrou pelo nosso projecto e questões a mesma dedicação e simpatia que toda a comitiva lhe reconhece, quer seja quando está a trabalhar ou nos poucos momentos de descanso que, durante esta digressão, teve direito a ter.
1 - Rugby Portugal: Em primeiro lugar, gostaríamos de lhe perguntar como surgiu a sua alcunha: ‘Manitas’?
Pedro Gomes: (Risos) “Foi no primeiro torneio em que participei. Devíamos ter sido dois fisioterapeutas para 60 atletas, no entanto acabei por ser só eu devido a um problema de última hora do outro fisioterapeuta, algo que, como deves calcular, aumentou o meu trabalho para o dobro. Tive em mão 60 atletas e tive que me desenrascar o melhor e o mais rápido que podia.
Os atletas e a equipa técnica gostaram do meu trabalho e o seleccionador nacional colocou-me então a alcunha de “Manitas del Plata” e sempre que me apresentava a alguém fazia questão que fosse apresentado como Manitas e até hoje assim ficou. Alias se perguntares quem é o Pedro Gomes, poucos são aqueles que te saberão responder.”
2 - Rugby Portugal: Abordando agora as suas funções, pode dizer-nos como costuma ser um dia normal para si (durante uma competição) e que tarefas lhe ficam entregues na rotina da selecção?
Pedro Gomes: “Durante uma competição fico normalmente com as seguintes tarefas a meu cargo:
- Cuidar da alimentação dos atletas (Aconselho estes sobre o que devem comer, quando é que devem comer e principalmente o que não podem comer antes, durante e depois do treino e jogo).
- Tratar dos principais meios de hidratação ao longo do dia (Algo que não pode falhar, seja ao longo do dia, antes durante e após o treino ou/e jogo).
- Prestação de cuidados em fisioterapia (Uma constante ao longo do dia, consoante a necessidade de cada jogador, seja antes, durante e após o jogo, mas principalmente à noite, quando as mazelas se notam mais, chegamos a estar até tarde a trabalhar com os atletas para que eles possam estar ao mais alto nível no dia seguinte. Não existe rotina para os tratamentos, quando são necessários, há intervenção, independentemente da altura, ou seja, estamos o dia todo a trabalhar).
- O aquecimento e o retorno à calma (Esta tarefa sempre me foi incumbida pelas equipas técnicas devido a minha formação na área do desporto. Sou responsável pela activação gradual dos atletas desde a mobilização articular inicial até a explosividade final com os sprints, passando pelo alongamento activo dos principais músculos utilizados nesta modalidade. O retorno à calma é executado de uma forma tranquila de forma a diminuir os níveis de adrenalina dos atletas e de uma forma activa, para acelerar a remoção de metabólitos).
- Recuperação (Trabalhamos nas mais variadas formas de recuperação dos atletas, mas em Brive aquela que foi mais utilizada foi sem dúvida o recurso aos banhos de imersão em gelo. Foi uma aventura e tanto, pois tivemos que arranjar um “caixote do lixo” onde coubessem 3 atletas de cada vez, pois tínhamos que fazer a recuperação de uma forma rápida e eficaz, numa situação em que tínhamos apenas uma hora entre os jogos para recuperar e voltar a activar os jogadores. Entre outros meios, que vão desde a alimentação, às correctas horas de sono, à recuperação activa, com corridas a seguir ao treino/jogo, à hidratação e alimentação correctas, etc. O que dá mais gozo no meio disto tudo é gerir estas variáveis e ver os resultados positivos nos atletas).
- Meio de comunicação entre jogadores e equipa técnica (Funciona como um desabafo dos atletas a compreensão por parte do fisioterapeuta de alguns problemas que os atletas apresentam e necessitam de extravasar mas não o querem fazer directamente com a equipa técnica. Um ombro amigo a 1800Km de casa ajuda bastante. O resto vocês podem concluir sozinhos).
Algumas rotinas inerentes aos jogos e treinos:
* Preparar o material necessário para o dia.
* Pequeno-Almoço como deve ser e a horas correctas.
* Meios de hidratação.
* Ligaduras para os saltadores.
* Meios físicos para as necessidades em campo.
* Todo o tipo de ligaduras para os jogadores.
* Observação e acompanhamento dos jogadores lesionados e em recuperação.
* Trabalho físico ou técnico com os jogadores que não podem treinar com a equipa (ex. um jogador que não possa treinar devido a uma entorse pode perfeitamente colocar bolas na touche ou fazer abdominais e outros exercícios físicos do género).
* Devo dizer que as tarefas são tantas que só mesmo acompanhando um dia de trabalho connosco tal como fizeste conseguiria passar tudo para aqui.”
3 - Rugby Portugal: Pese embora o facto de oficialmente figurar como fisioterapeuta nas convocatórias, é verdade que muito do trabalho de preparação e recuperação física deste grupo passa por si. Pode contar-nos como é que entrou no rugby e qual o porquê dessa maior amplitude de funções?
Pedro Gomes: “Entrei no rugby no estágio final do terceiro ano de fisioterapia. Tive a sorte de ser colocado a estagiar com os Lobos na sua preparação para o Campeonato do Mundo em França. Convivi e vivi com intensidade todas as fases de preparação (dois meses) antes de irem para França.
Aprendi imenso com os terapeutas José Carlos Rodrigues e Luís Ramusga. A maior amplitude de funções tem a ver com a minha formação em outras áreas de desporto e em personal training. A equipa técnica soube disso, colocou-me à prova nestas funções e aqui estou eu.”
4 – Rugby Portugal: Nesta competição, a Euro Rugby Cup, tal como em muitas outras, é necessário assegurar que as lesões são evitadas e que os jogadores estão na melhor forma possível. Como é que consegue recuperar os jogadores e como é que aborda o tratamento das lesões destes durante estas provas no estrangeiro?
Pedro Gomes: “Provavelmente já me adiantei (sobre este tema) nas questões anteriores. Na Selecção seguimos um método de sistematização dos atletas (individualmente e em grupo).
– Pensamos no treino, jogo e torneio.
– Avaliamos a carga de cada evento desportivo.
– Vemos quais os meios que temos e não temos ao nosso dispor.
– Observamos e avaliamos os jogadores consoante a lesão.
– A recuperação esta sempre a acontecer, desde o inicio, durante e após o evento.
– Apostamos muito na prevenção das lesões (insistindo numa alimentação correcta, na hidratação, nas ligaduras, no repouso e num número correcto de horas de sono).
– No estrangeiro, tal como em Portugal, apenas temos de fazer com que o jogador esteja pronto para jogar assim que for solicitado. Ocorrendo uma lesão, esta é logo avaliada, sendo feito um exame físico e objectivo e elaborando-se um diagnóstico e um plano de tratamento com os objectivos necessários para que este volte a estar disponível.
– Não é fácil pôr um jogador bom de um dia para o outro, pois isso depende da lesão e da sua severidade, mas se o puder fazer de certeza que utilizo os meios necessários para tal.”
5 - Rugby Portugal: Por fim, queremos desafia-lo a comentar o desempenho dos nossos jovens Lobos, em especial no plano físico, e a abordar connosco as lesões e mazelas que estes jogadores sofreram ao longo da prova?
Pedro Gomes: “Meu caro, os nossos jovens lobos estiveram à altura de todas as solicitações físicas que lhes foram impostas sendo que chegámos a final, contra tudo e contra todos, com condições que teve que ser a equipa técnica a providenciar e graças a ti e aos pais dos atletas. Eles jogaram de coração e com alma e só lá estando é que se podia constatar esse facto.
Quanto às mazelas, estamos no rugby é normal que aconteçam, no entanto, creio que até tivemos poucas, com alguma severidade, apenas uma, que ainda estamos à espera de ver confirmada. No cômputo geral, viemos praticamente como fomos: fortes, pequenos de corpo mas gigantes de coração.”
Pedro Gomes: (Risos) “Foi no primeiro torneio em que participei. Devíamos ter sido dois fisioterapeutas para 60 atletas, no entanto acabei por ser só eu devido a um problema de última hora do outro fisioterapeuta, algo que, como deves calcular, aumentou o meu trabalho para o dobro. Tive em mão 60 atletas e tive que me desenrascar o melhor e o mais rápido que podia.
Os atletas e a equipa técnica gostaram do meu trabalho e o seleccionador nacional colocou-me então a alcunha de “Manitas del Plata” e sempre que me apresentava a alguém fazia questão que fosse apresentado como Manitas e até hoje assim ficou. Alias se perguntares quem é o Pedro Gomes, poucos são aqueles que te saberão responder.”
2 - Rugby Portugal: Abordando agora as suas funções, pode dizer-nos como costuma ser um dia normal para si (durante uma competição) e que tarefas lhe ficam entregues na rotina da selecção?
Pedro Gomes: “Durante uma competição fico normalmente com as seguintes tarefas a meu cargo:
- Cuidar da alimentação dos atletas (Aconselho estes sobre o que devem comer, quando é que devem comer e principalmente o que não podem comer antes, durante e depois do treino e jogo).
- Tratar dos principais meios de hidratação ao longo do dia (Algo que não pode falhar, seja ao longo do dia, antes durante e após o treino ou/e jogo).
- Prestação de cuidados em fisioterapia (Uma constante ao longo do dia, consoante a necessidade de cada jogador, seja antes, durante e após o jogo, mas principalmente à noite, quando as mazelas se notam mais, chegamos a estar até tarde a trabalhar com os atletas para que eles possam estar ao mais alto nível no dia seguinte. Não existe rotina para os tratamentos, quando são necessários, há intervenção, independentemente da altura, ou seja, estamos o dia todo a trabalhar).
- O aquecimento e o retorno à calma (Esta tarefa sempre me foi incumbida pelas equipas técnicas devido a minha formação na área do desporto. Sou responsável pela activação gradual dos atletas desde a mobilização articular inicial até a explosividade final com os sprints, passando pelo alongamento activo dos principais músculos utilizados nesta modalidade. O retorno à calma é executado de uma forma tranquila de forma a diminuir os níveis de adrenalina dos atletas e de uma forma activa, para acelerar a remoção de metabólitos).
- Recuperação (Trabalhamos nas mais variadas formas de recuperação dos atletas, mas em Brive aquela que foi mais utilizada foi sem dúvida o recurso aos banhos de imersão em gelo. Foi uma aventura e tanto, pois tivemos que arranjar um “caixote do lixo” onde coubessem 3 atletas de cada vez, pois tínhamos que fazer a recuperação de uma forma rápida e eficaz, numa situação em que tínhamos apenas uma hora entre os jogos para recuperar e voltar a activar os jogadores. Entre outros meios, que vão desde a alimentação, às correctas horas de sono, à recuperação activa, com corridas a seguir ao treino/jogo, à hidratação e alimentação correctas, etc. O que dá mais gozo no meio disto tudo é gerir estas variáveis e ver os resultados positivos nos atletas).
- Meio de comunicação entre jogadores e equipa técnica (Funciona como um desabafo dos atletas a compreensão por parte do fisioterapeuta de alguns problemas que os atletas apresentam e necessitam de extravasar mas não o querem fazer directamente com a equipa técnica. Um ombro amigo a 1800Km de casa ajuda bastante. O resto vocês podem concluir sozinhos).
Algumas rotinas inerentes aos jogos e treinos:
* Preparar o material necessário para o dia.
* Pequeno-Almoço como deve ser e a horas correctas.
* Meios de hidratação.
* Ligaduras para os saltadores.
* Meios físicos para as necessidades em campo.
* Todo o tipo de ligaduras para os jogadores.
* Observação e acompanhamento dos jogadores lesionados e em recuperação.
* Trabalho físico ou técnico com os jogadores que não podem treinar com a equipa (ex. um jogador que não possa treinar devido a uma entorse pode perfeitamente colocar bolas na touche ou fazer abdominais e outros exercícios físicos do género).
* Devo dizer que as tarefas são tantas que só mesmo acompanhando um dia de trabalho connosco tal como fizeste conseguiria passar tudo para aqui.”
3 - Rugby Portugal: Pese embora o facto de oficialmente figurar como fisioterapeuta nas convocatórias, é verdade que muito do trabalho de preparação e recuperação física deste grupo passa por si. Pode contar-nos como é que entrou no rugby e qual o porquê dessa maior amplitude de funções?
Pedro Gomes: “Entrei no rugby no estágio final do terceiro ano de fisioterapia. Tive a sorte de ser colocado a estagiar com os Lobos na sua preparação para o Campeonato do Mundo em França. Convivi e vivi com intensidade todas as fases de preparação (dois meses) antes de irem para França.
Aprendi imenso com os terapeutas José Carlos Rodrigues e Luís Ramusga. A maior amplitude de funções tem a ver com a minha formação em outras áreas de desporto e em personal training. A equipa técnica soube disso, colocou-me à prova nestas funções e aqui estou eu.”
4 – Rugby Portugal: Nesta competição, a Euro Rugby Cup, tal como em muitas outras, é necessário assegurar que as lesões são evitadas e que os jogadores estão na melhor forma possível. Como é que consegue recuperar os jogadores e como é que aborda o tratamento das lesões destes durante estas provas no estrangeiro?
Pedro Gomes: “Provavelmente já me adiantei (sobre este tema) nas questões anteriores. Na Selecção seguimos um método de sistematização dos atletas (individualmente e em grupo).
– Pensamos no treino, jogo e torneio.
– Avaliamos a carga de cada evento desportivo.
– Vemos quais os meios que temos e não temos ao nosso dispor.
– Observamos e avaliamos os jogadores consoante a lesão.
– A recuperação esta sempre a acontecer, desde o inicio, durante e após o evento.
– Apostamos muito na prevenção das lesões (insistindo numa alimentação correcta, na hidratação, nas ligaduras, no repouso e num número correcto de horas de sono).
– No estrangeiro, tal como em Portugal, apenas temos de fazer com que o jogador esteja pronto para jogar assim que for solicitado. Ocorrendo uma lesão, esta é logo avaliada, sendo feito um exame físico e objectivo e elaborando-se um diagnóstico e um plano de tratamento com os objectivos necessários para que este volte a estar disponível.
– Não é fácil pôr um jogador bom de um dia para o outro, pois isso depende da lesão e da sua severidade, mas se o puder fazer de certeza que utilizo os meios necessários para tal.”
5 - Rugby Portugal: Por fim, queremos desafia-lo a comentar o desempenho dos nossos jovens Lobos, em especial no plano físico, e a abordar connosco as lesões e mazelas que estes jogadores sofreram ao longo da prova?
Pedro Gomes: “Meu caro, os nossos jovens lobos estiveram à altura de todas as solicitações físicas que lhes foram impostas sendo que chegámos a final, contra tudo e contra todos, com condições que teve que ser a equipa técnica a providenciar e graças a ti e aos pais dos atletas. Eles jogaram de coração e com alma e só lá estando é que se podia constatar esse facto.
Quanto às mazelas, estamos no rugby é normal que aconteçam, no entanto, creio que até tivemos poucas, com alguma severidade, apenas uma, que ainda estamos à espera de ver confirmada. No cômputo geral, viemos praticamente como fomos: fortes, pequenos de corpo mas gigantes de coração.”